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Anais

Resumo do trabalho

Estudos Organizacionais · Simbolismos, Culturas e Identidades

Título

DO BEAT AO BET: A PROMOÇÃO DO JOGO DO TIGRINHO NA MÚSICA BRASILEIRA SOB A LENTE DA ANÁLISE CRÍTICA DO DISCURSO

Palavras-chave

Indústria Cultural Análise Crítica do Discurso Jogo do Tigrinho
Agradecimento: Agradecemos à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) pelo apoio financeiro concedido, que foi essencial para a realização desta pesquisa.

Autores

  • Matheus Vitor Pereira de Abreu
    UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS (UFMG)
  • Mariane Rodrigues Nery
    UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS (UFMG)
  • Valderí de Castro Alcântara
    UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS (UFMG)

Resumo

Introdução

O setor de apostas online no Brasil experimentou expansão significativa no século XXI, impulsionado pela digitalização e amplo acesso à internet, consolidando-se como segmento expressivo da economia digital. Apesar de elevados investimentos em marketing, os apostadores perderam R$23,9 bilhões em 2023 (Itaú BBA, 2024). Em 2024, 25 milhões aderiram às apostas online, majoritariamente jovens das classes C, D e E, comprometendo 20% do orçamento mensal (XP Investimentos, 2024). O cenário evidencia impactos psicossociais relevantes, o que o caracteriza como um problema social.

Problema de Pesquisa e Objetivo

Este estudo propõe investigar a inserção de casas de apostas em manifestações musicais brasileiras, como funk, trap, rap e sertanejo, analisando seu papel na difusão de valores que legitimam o fenômeno das apostas entre grupos vulneráveis. Objetiva-se problematizar as ideologias subjacentes aos discursos dessas produções, compreendendo-as como dimensão de um problema social. A pergunta de pesquisa é: "Como o jogo do Tigrinho é representado nas letras de músicas, e de que forma esses discursos contribuem para a legitimação cultural das apostas online no Brasil?".

Fundamentação Teórica

A investigação fundamenta-se na Teoria da Indústria Cultural desenvolvida por Adorno e Horkheimer (1985) e Adorno (1971), que elucida a mercantilização da cultura em sociedades capitalistas, nas quais a produção cultural se subordina à lógica do lucro. Destaca-se o condicionamento auditivo e a pseudo-individualização como mecanismos de neutralização crítica. Além disso, a Análise Crítica do Discurso de Fairclough (2001, 2012) complementa o referencial, abordando a linguagem como prática social e explorando suas relações dialéticas com o poder.

Metodologia

Adotou-se abordagem qualitativa e descritiva, ancorada na Análise Crítica do Discurso de Fairclough e na Teoria da Indústria Cultural de Adorno e Horkheimer. Utilizaram-se Spotify e YouTube para coleta documental, buscando o termo “tigrinho” e variantes. Foram selecionadas nove músicas de diferentes estilos (trap, funk, sertanejo, rap) com base na expressividade numérica. A análise concentrou-se em examinar como tais produções reforçam ideologias que naturalizam e fomentam a cultura das apostas online.

Análise dos Resultados

A análise mostrou que a maioria das músicas apresenta uma representação idealizada e positiva do "Tigrinho" como caminho para o enriquecimento rápido. Essa representação veicula uma ideologia utilitarista neoliberal, ligando os ganhos à aquisição de agência, poder, e à objetificação de mulheres. A perda no "Tigrinho" é naturalizada e eufemizada, incitando a esperança de ganhos futuros, mesmo após prejuízos. As músicas também associam o jogo a um estilo de vida de ostentação (luxo, lazer), criando uma máscara de sonho que seduz e engana o ouvinte, fragmentando classes sociais.

Conclusão

Constatou-se que as produções musicais analisadas promovem a ilusão de enriquecimento rápido, ocultando as reais probabilidades de perda e vinculando ganhos à conquista de status social e consumo. Tal discurso fortalece a lógica neoliberal ao individualizar responsabilidades por adversidades estruturais, deslocando críticas de suas causas reais. Assim, a promoção do jogo converte a produção musical em instrumento de alienação, neutralizando seu potencial emancipatório.

Contribuição / Impacto

Este trabalho contribui para o debate crítico sobre o papel da produção cultural na legitimação de práticas que reforçam desigualdades sociais no Brasil. Evidencia-se a responsabilidade social de artistas e da indústria musical ao transformarem a música em canal de difusão de valores ilusórios. Sugere-se ampliar o corpus para outras modalidades de apostas e estudos de recepção, visando compreender como tais mensagens são apropriadas e mantêm o ciclo de exploração simbólica.

Referências Bibliográficas

ADORNO, Theodor W. & HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
ADORNO, Theodor W. A indústria cultural. In: COHN, G. (org). Comunicação e indústria cultural. Cia Editora Nacional/Editora Universidade de São Paulo, 1971.
FAIRCLOUGH, Norman. Discurso e mudança social. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001.
FAIRCLOUGH, Norman; DE MELO, Iran Ferreira. Análise crítica do discurso como método em pesquisa social científica. Linha d'agua, v. 25, n. 2, p. 307-329, 2012.

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