Anais
Resumo do trabalho
Gestão de Pessoas · Valores, Sentidos e Vínculos no/do Trabalho
Título
O PARADOXO DO TRABALHO SOCIALMENTE ÚTIL: A instrumentalização do propósito como mecanismo de dominação de trabalhadores em Organizações da Sociedade Civil
Palavras-chave
Sentido do trabalho
Bullshit jobs
Propósito
Agradecimento:
Agradeço à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pelo financiamento.
Autores
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Wellyngton Ribamar Silva PoliFaculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo - FEA
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André Luis SilvaUNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP)
Resumo
Introdução
Este artigo analisa criticamente o paradoxo do sofrimento em trabalhos socialmente úteis nas OSCs, mostrando como a valorização do propósito pode ser instrumentalizada como forma de dominação. Ao invés da inutilidade, como propõe Graeber (2018) com os bullshit jobs, o sofrimento aqui decorre da alienação gerada pela vinculação do compromisso pessoal à missão organizacional, resultando em sobrecarga e precarização legitimadas pelo ideal de propósito
Problema de Pesquisa e Objetivo
Analisar criticamente o paradoxo do trabalho socialmente útil em Organizações da Sociedade Civil (OSCs), investigando como a instrumentalização do propósito se configura como um mecanismo de dominação que gera mal-estar e alienação nos trabalhadores, em contraste com as premissas da teoria dos bullshit jobs
Fundamentação Teórica
O referencial articula três eixos: a teoria dos bullshit jobs (Graeber, 2018) e suas críticas empíricas; o conceito de alienação nas relações de trabalho; e os debates sobre trabalho significativo. Argumenta-se que, nas OSCs, o sofrimento não deriva da inutilidade do trabalho, mas da instrumentalização do propósito como forma de controle, gerando sobrecarga, precarização e alienação, mesmo em contextos de forte motivação e engajamento com causas sociais.
Metodologia
Foram realizadas 20 entrevistas semiestruturadas com trabalhadores de 14 OSCs, selecionados por vínculos não esporádicos. As entrevistas, feitas por videoconferência entre julho e agosto de 2024, duraram cerca de uma hora. A amostragem combinou busca ativa no LinkedIn e técnica de bola de neve. Os dados foram transcritos (412 páginas) e analisados segundo a Análise do Discurso Crítica, ancorada no Realismo Crítico. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética (CAAE nº 9843024.0.0000.5390).
Análise dos Resultados
A análise dos excertos revela que, nas OSCs, o sofrimento psíquico decorre não da inutilidade do trabalho, mas da instrumentalização do propósito como forma de controle. Mesmo em funções socialmente úteis, trabalhadores vivenciam alienação pelo propósito, marcada por autoexploração, culpa e sacrifício. O estudo amplia a teoria dos bullshit jobs (Graeber, 2018), mostrando que a utilidade social, quando apropriada ideologicamente pelas organizações, também pode ser fonte de sofrimento e precarização.
Conclusão
Este estudo contribui para o debate sobre trabalho significativo ao superar a dicotomia útil/inútil da teoria dos bullshit jobs. Com base em dados empíricos, argumenta-se que o sofrimento psíquico pode emergir mesmo em trabalhos socialmente úteis, quando o propósito é instrumentalizado como forma de controle. Assim, propõe-se uma abordagem mais crítica, que considere não apenas a utilidade objetiva do trabalho, mas como seu discurso é mobilizado nas relações de poder.
Contribuição / Impacto
Este trabalho contribui ao debate sobre trabalho significativo ao demonstrar que, mesmo em ocupações socialmente úteis, o propósito pode ser instrumentalizado como forma de controle, gerando sofrimento psíquico. Propõe a noção de “alienação pelo propósito”, ampliando a teoria dos bullshit jobs e evidenciando que o sofrimento no trabalho não resulta apenas da inutilidade percebida, mas também do excesso de identificação com um propósito mobilizado ideologicamente pelas organizações.
Referências Bibliográficas
Graeber, D. (2018). Bullshit Jobs: A Theory. Simon & Schuster.