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Anais

Resumo do trabalho

Estudos Organizacionais · Diversidade, Diferença e Inclusão nas Organizações

Título

JURANDI, TENDO PERCORRIDO O CAMINHO DA MORTE, AINDA ESTÁ VIVO: UMA VISÃO INTERSECCIONAL SOBRE ORGANIZAÇÕES E NECROPOLÍTICA

Palavras-chave

necropolítica interseccionalidades organizações

Autores

  • Luiz Phelipe Soares Rodrigues
    UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP)

Resumo

Introdução

Este ensaio propõe uma reflexão crítica sobre biopoder e necropolítica, articulando-os ao feminismo negro no Brasil por meio de uma abordagem interseccional das opressões de raça, gênero e classe. Para evidenciar como esses conceitos se manifestam nas organizações, analisa-se o caso real de uma mãe negra que enfrenta a lógica gerencial de uma operadora de saúde diante da internação do filho em estado grave.

Problema de Pesquisa e Objetivo

O artigo parte do problema teórico de como organizações contemporâneas podem operar práticas necropolíticas sob uma racionalidade gerencial e produtiva, especialmente sobre corpos racializados e subalternizados. O objetivo é investigar, à luz dos conceitos de biopoder e necropolítica articulados à interseccionalidade, como essas lógicas se manifestam no cotidiano de uma organização de saúde, a partir da análise empírica de um caso real de internação hospitalar prolongada.

Fundamentação Teórica

A fundamentação articula os conceitos de biopoder (Foucault) e necropolítica (Mbembe), explorando como o poder sobre a vida e a morte se manifesta nas organizações. Dialoga com autoras do feminismo negro, como Sueli Carneiro, Grada Kilomba e Patricia Hill Collins, para evidenciar a centralidade da interseccionalidade na compreensão das opressões de raça, gênero e classe. Aborda ainda a analogia com a plantation como modelo estrutural de dominação nas instituições contemporâneas.

Metodologia

Adota-se uma abordagem qualitativa e implicada, nos termos de Grada Kilomba (2019), em Memórias da Plantação, que propõe escrever a partir do lugar de fala e da experiência vivida. O estudo de caso é construído a partir da vivência do autor como familiar do paciente, com base em cartas enviadas ao hospital, relatos observacionais e reconstrução narrativa. A análise articula teoria crítica e interseccionalidade para interpretar práticas organizacionais sob a lógica da necropolítica.

Análise dos Resultados

A análise revela que a operadora de saúde e o hospital atuaram sob uma lógica necropolítica, tratando o paciente como objeto descartável e silenciando a família. As cartas escritas pelas mulheres da família funcionaram como mecanismos de resistência, tensionando a estrutura institucional. As práticas organizacionais analisadas evidenciam a reprodução da lógica da plantation, com perda de lar, voz e agência, e a racialização da gestão da morte no ambiente hospitalar.

Conclusão

O caso evidencia como organizações pautadas por valores declarados como acolhimento e respeito, na prática priorizam a eficiência de custos, operando uma lógica necropolítica que desumaniza corpos racializados. A análise revela o abismo entre os discursos institucionais e as ações concretas. A mobilização da família, especialmente de mulheres negras, rompeu esse ciclo, afirmando a vida frente à gestão da morte, e questionando os fundamentos éticos da atuação organizacional.

Contribuição / Impacto

O artigo contribui para os estudos sobre diversidade e interseccionalidade ao evidenciar como organizações de saúde, mesmo com discursos institucionais de acolhimento, operam lógicas necropolíticas que afetam desproporcionalmente corpos racializados e empobrecidos. A experiência analisada revela barreiras institucionais à inclusão e ao cuidado, questiona a efetividade de valores organizacionais e amplia o debate sobre como classe, raça e gênero moldam experiências de exclusão em contextos organizacionais.

Referências Bibliográficas

CARNEIRO, Sueli. Enegrecer o feminismo. In: HIRATA, Helena et al. (org.). Pensamento feminista: conceitos fundamentais. São Paulo: Bazar do Tempo, 2019. p. 311–318.

COLLINS, Patricia Hill. Interseccionalidade. São Paulo: Boitempo, 2021.

KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. 2. ed. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. Tradução de Renata Santini. São Paulo: n-1 edições, 2018.

SCHUCK, Elena. Feminismos em trânsito internacional: a circulação do conhecimento feminista entre Brasil e França. Monções, Dourados, v6, n. 11, p. 89–120, 2017

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