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Anais

Resumo do trabalho

Estudos Organizacionais · Diversidade, Diferença e Inclusão nas Organizações

Título

Subir Até Onde? Raça, Gênero e a Ideologia Meritocrática nas Organizações Públicas

Palavras-chave

universidades federais teto de vidro racismo institucional

Autores

  • Deborah Leão Sousa Silva
    UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS (UFMG)

Resumo

Introdução

As universidades públicas brasileiras, especialmente as federais, historicamente ocupam um lugar de prestígio e influência no campo do saber. Contudo, essas instituições também são atravessadas por relações de poder marcadas por desigualdades raciais e de gênero. A presença de mulheres negras como professoras, pesquisadoras e gestoras permanece significativamente baixa, mesmo após políticas de inclusão como as cotas para docentes.

Problema de Pesquisa e Objetivo

A pergunta norteadora deste artigo é: como a ideologia meritocrática e o racismo institucional estruturam a reprodução das desigualdades de raça e gênero nas universidades federais, especialmente no que tange à carreira docente de mulheres negras? Para responder a essa questão, propõe-se uma análise teórica e empírica, com base em narrativas do documentário A coisa tá preta (Filipe, 2021) e em dados oficiais sobre o perfil de docentes e servidores.

Fundamentação Teórica

Compreender as desigualdades nas universidades federais exige olhar atento às experiências das mulheres negras, cujas trajetórias não podem ser explicadas apenas por raça ou apenas por gênero. Como nos ensina Crenshaw (2013), é na sobreposição entre racismo e sexismo que essas barreiras se constroem e se aprofundam. Ray (2019) argumenta que as organizações são estruturalmente racializadas, legitimando a distribuição desigual de recursos e transformando a branquitude em uma credencial organizacional, operando dissociação racializada entre normas e práticas.

Metodologia

Este artigo adota abordagem qualitativa, fundamentada em referencial crítico-interseccional e orientada por perspectivas decoloniais. Utiliza análise narrativa e documental, com base no documentário A coisa tá preta (Filipe, 2021) e em dados do Painel Estatístico de Pessoal (PEP), Observatório da Presença Negra no Serviço Público e literatura acadêmica. A triangulação das fontes permite articular dimensões subjetivas e estruturais da exclusão de mulheres negras na docência.

Análise dos Resultados

A análise mostra que, apesar das políticas afirmativas, mulheres negras continuam sub-representadas nos cargos de prestígio nas universidades federais. As estruturas institucionais reproduzem a exclusão por meio da meritocracia, da branquitude como norma e do silenciamento de saberes negros. O racismo institucional se expressa em práticas de deslegitimação, vigilância e solidão. Os dados confirmam a permanência do “teto de vidro” na gestão acadêmica e na carreira docente.

Conclusão

As análises apresentadas demonstram que o racismo institucional, articulado ao sexismo e à lógica meritocrática, estrutura os mecanismos de exclusão que limitam o acesso e a ascensão de mulheres negras na carreira docente. A centralidade da branquitude como norma e a naturalização da meritocracia devem ser enfrentadas por ações afirmativas e disputas epistemológicas. Escutar as vozes de mulheres negras como produtoras de teoria, memória e resistência é essencial para transformar as universidades em espaços verdadeiramente plurais e antirracistas.

Contribuição / Impacto

Este artigo problematiza as relações institucionais que reproduzem desigualdades de raça e gênero nas universidades federais, com foco nas barreiras enfrentadas por mulheres negras na docência e gestão. Ao articular narrativas e dados oficiais, contribui para evidenciar que o racismo institucional, combinado à ideologia meritocrática, mantém o teto de vidro. A análise reforça a necessidade de ações afirmativas e disputas epistemológicas como caminhos para transformar as universidades públicas.

Referências Bibliográficas

ALMEIDA, M. de. Racismo acadêmico e seus afetos. História: Questões & Debates, 2021.
69(2), 96–109. https://doi.org/10.5380/his.v69i2.80267
ALVES, Mario Aquino; GALEÃO-SILVA, Luis Guilherme. A crítica da gestão da diversidade
nas organizações. Revista de Administração de Empresas, v. 44, p. 20-29, 2004.
BENTO, Cida. O pacto da branquitude. Companhia das letras, 2022.
CRENSHAW, Kimberlé. Demarginalizing the intersection of race and sex: A black feminist
critique of antidiscrimination doctrine, feminist theory and antiracist politics. In: Feminist
legal theories. Routledge, 2013. p. 23-51.

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