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Anais

Resumo do trabalho

Estudos Organizacionais · Simbolismos, Culturas e Identidades

Título

SOB A ÉGIDE DO MANAGEMENT: A CEGUEIRA DE JOVENS PROFISSIONAIS À LUZ DE JOSÉ SARAMAGO

Palavras-chave

Cultura do management Jovens profissionais Ensaio sobre a cegueira

Autores

  • Maria Clara Cabral
    UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS (UFMG)
  • Cristiana Trindade Ituassu
    UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS (UFMG)

Resumo

Introdução

A cultura do management, visível em fenômenos como gerencialismo, culto da performance e cultura do empreendedorismo, molda subjetividades e reforça a exploração do trabalho sob a lógica capitalista. Controla as percepções dos sujeitos, podendo se relacionar à cegueira como retratada em “Ensaio Sobre a Cegueira”: ligada à falta de consciência e à passividade. Isso ocorre sobretudo com jovens, em fase de formação da sua identidade, portanto mais vulneráveis aos discursos ideológicos provenientes dessa cultura – o que acaba resultando no aceite de condições precárias de vida e trabalho.

Problema de Pesquisa e Objetivo

O propósito deste estudo consiste em analisar a relação entre a cegueira, segundo a obra de Saramago, e o discurso do management para jovens profissionais.

Fundamentação Teórica

A cultura do management, decorrente do movimento gerencialista, traz a ideia de que as técnicas administrativas estão envoltas num imaginário específico, cujos valores – benéficos às empresas e prejudiciais às pessoas – ultrapassam a esfera organizacional e adentram o tecido social. Jovens profissionais são entendidos, na pesquisa, como os novos entrantes do mercado de trabalho, correspondendo ao que a literatura chama de Geração Z. Já o conceito de cegueira adotado teve como base o mesmo da obra Ensaio sobre a Cegueira, de Saramago, que fala da falta de lucidez: “Cegos que, vendo, não veem”.

Metodologia

A pesquisa desenvolvida adotou uma abordagem qualitativa, de caráter exploratório. Já a coleta de dados foi realizada por meio de entrevistas com roteiro semi-estruturado, com jovens profissionais de 21 a 30 anos. Em sua maioria, eram da área da gestão, por estarem mais expostos ao discurso do management. A análise dos dados foi feita por meio de uma análise de conteúdo e, para a codificação, foram definidas três grandes categorias: valores, cultura do management e cegueira, as quais se subdividiram em outras nove subcategorias.

Análise dos Resultados

A primeira categoria, Valores, traz como subcategorias os valores internalizados pelos jovens profissionais: sucesso, competências para fazer a diferença e visão positiva do trabalho. Já a segunda, Cultura do management, abrange como subcategorias os fenômenos que caracterizam essa cultura: gerencialismo, culto da performance e cultura do empreendedorismo. A terceira, Cegueira, evidencia a cegueira entre os entrevistados, com aspectos que contribuem para sua origem e impactos, envolvendo as subcategorias: influências, efeitos e evidências. Todos esses elementos estavam presentes nos relatos.

Conclusão

A pesquisa revelou que os jovens profissionais entrevistados, embora conscientes dos efeitos da cultura do management, tendem a aceitar suas imposições, reproduzindo valores com os quais nem sempre concordam e se submetendo a situações de desgaste e sofrimento. Essa cegueira, relacionada à obra de José Saramago, reflete o condicionamento à lógica da produtividade. Entretanto, um entrevistado, menos exposto a esse discurso, demonstrou maior autonomia, mostrando que, embora seja difícil escapar dessa cultura, é possível amenizar seus efeitos por meio da consciência crítica e da resistência.

Contribuição / Impacto

Esta pesquisa apresenta contribuição para os jovens profissionais, servindo como um alerta para despertá-los acerca da situação que vivem e fomentar neles uma consciência mais crítica em relação às subjetividades moldadas pela ideologia gerencialista, de maneira que estejam mais atentos aos valores da cultura do management, suas formas de influência e efeitos. É também um chamado à necessidade de buscarem outros caminhos para além daqueles que prejudicam seu bem-estar e fragilizam suas relações sociais, em favor de resultados meramente organizacionais.

Referências Bibliográficas

EHRENBERG, A. O culto da performance: da aventura empreendedora à depressão nervosa. São Paulo: Ideias e Letras, 2010.
GAULEJAC, V. D. Gestão como doença social: ideologia, poder gerencialista e fragmentação social. São Paulo: Idéias & Letras, 2007.
ITUASSU, C. T.; TONELLI, M. J. Sucesso, mídia de negócios e a cultura do management no Brasil. Cadernos EBAPE. BR, v. 12, p. 86-111, 2014.
SARAMAGO, José. Ensaio sobre a Cegueira. 48ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

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