Anais
Resumo do trabalho
Gestão de Pessoas · As faces da Diversidade
Título
ENTRE O NÃO DITO E O SENTIDO: A EXPERIÊNCIA DE SERVIDORES COM DEFICIÊNCIAS INVISÍVEIS NA GESTÃO DA PRÓPRIA IDENTIDADE
Palavras-chave
Deficiências invisíveis
Identidade Profissional
Inclusão
Autores
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Davi Sampaio MarquesUNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ (UFC)
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Tereza Cristina Batista de LimaUNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ (UFC)
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Luis Eduardo Brandão PaivaUNIVERSIDADE NOVE DE JULHO (UNINOVE)
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Sofia Batista FerrazFEA USP
Resumo
Introdução
A inclusão de pessoas com deficiência ainda representa um desafio nas organizações, especialmente no caso de condições invisíveis, como autismo, TDAH e fibromialgia. Embora promovam discursivamente a diversidade, muitas instituições, como universidades públicas, seguem reproduzindo práticas capacitistas que invalidam essas experiências. Este estudo busca ampliar a compreensão sobre as vivências de servidores com deficiências não aparentes, explorando como se constituem em contextos marcados por exigências de desempenho e invisibilização institucional.
Problema de Pesquisa e Objetivo
Diante do paradoxo entre discursos institucionais de inclusão e práticas organizacionais que frequentemente reproduzem exclusões sutis, especialmente em relação a deficiências não aparentes, surge a seguinte questão: como servidores públicos com deficiências invisíveis percebem suas condições e de que modo essas percepções influenciam a construção e a gestão de suas identidades no trabalho? Esta pesquisa tem como objetivo analisar as percepções desses servidores sobre suas deficiências e os desdobramentos dessa condição na construção e gestão de suas identidades no trabalho.
Fundamentação Teórica
As deficiências invisíveis impõem desafios à inclusão organizacional por não apresentarem marcadores físicos evidentes, o que compromete seu reconhecimento institucional e gera estigmas silenciosos. A gestão da identidade profissional é atravessada por estratégias como o masking e a ocultação, intensificando a fadiga emocional. A cultura meritocrática e capacitista ainda presente nas universidades públicas desconsidera a neurodiversidade, demandando políticas que reconheçam a diferença e promovam ambientes mais equitativos e acolhedores.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de orientação interpretativista e abordagem fenomenológica, voltada à compreensão das experiências de 22 servidores públicos com deficiências invisíveis em uma universidade federal. As entrevistas semiestruturadas foram analisadas por meio de análise temática reflexiva (Braun & Clarke, 2019), com apoio do software MAXQDA. A seleção dos participantes seguiu critérios de Santuzzi et al. (2019), e a pesquisa foi aprovada por Comitê de Ética.
Análise dos Resultados
A análise evidenciou tensões entre revelação e ocultação da deficiência, estratégias como masking, sobrecarga emocional e ausência de suporte institucional. Diagnósticos tardios favoreceram a autocompreensão, mas não garantiram reconhecimento organizacional. A identidade profissional é impactada por práticas capacitistas e por uma cultura produtivista que reforça barreiras simbólicas, aprofundando a fadiga de acesso e a invisibilização das diferenças funcionais.
Conclusão
A deficiência invisível impacta de forma profunda a gestão da identidade no trabalho, ao tensionar pertencimento, legitimidade e reconhecimento. O estudo evidencia que políticas inclusivas só se efetivam quando acompanhadas de mudanças culturais e estruturais. A superação do capacitismo exige o reconhecimento das especificidades funcionais e o rompimento com lógicas de desempenho normativo, valorizando múltiplas formas de existir e contribuir no trabalho.
Contribuição / Impacto
A pesquisa aprofunda o debate sobre deficiência invisível no serviço público, evidenciando lacunas institucionais e os efeitos do estigma, do masking e da fadiga de acesso. Destaca o papel das redes de apoio e a necessidade de práticas inclusivas que considerem a neurodiversidade. Contribui teoricamente ao articular identidade, capacitismo estrutural e interseccionalidade, integrando Administração Pública, Psicologia Organizacional e Estudos sobre Deficiência. Propõe políticas baseadas em justiça organizacional e reconhecimento ético da diferença.
Referências Bibliográficas
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SANTUZZI, A. M. et al. Disclosure of invisible disabilities in the workplace: A meta-ethnography. Journal of Vocational Behavior, v. 110, p. 261–275, 2019.
SLAY, H. S.; SMITH, D. A. Professional identity construction: Using narrative to understand the negotiation of professional and stigmatized cultural identities. Human Relations, v. 64, n. 1, p. 85-107, 2011.
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