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Anais

Resumo do trabalho

Estudos Organizacionais · Diversidade, Diferença e Inclusão nas Organizações

Título

“VOCÊ NÃO TEM FILHO MESMO, TEM TEMPO DE SOBRA”: ENTRE A INVISIBILIDADE DAS DEMANDAS E A AUTONOMIA RESTRITA NA EXPERIÊNCIA DE MULHERES SEM FILHOS NAS ORGANIZAÇÕES

Palavras-chave

Mulheres sem filhos Trabalho Gênero

Autores

  • Elisa Bezerra de Barros
    FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UNIR)
  • Aline dos Santos Barbosa
    Instituto de Desenvolvimento Educacional FGV/IDE
  • Marcello Romani-Dias
    UNIVERSIDADE POSITIVO (UP)

Resumo

Introdução

Apesar dos avanços na equidade, desigualdades de gênero persistem na vida profissional das mulheres, incluindo segregação e sobrecarga. Um segmento pouco visibilizado são as mulheres sem filhos, negligenciadas nos estudos trabalho-vida. Embora percebidas como mais disponíveis, elas enfrentam estigmas e sobrecarga devido a expectativas de dedicação integral e "demandas invisíveis", como cobrir colegas. Isso gera um cenário de autonomia restrita.

Problema de Pesquisa e Objetivo

A lacuna na literatura sobre trabalho e gênero referente às mulheres sem filhos, que são sub-representadas em estudos sobre carreira e flexibilidade, constitui o problema central. O objetivo é analisar a experiência delas em organizações, focando no paradoxo entre as demandas invisíveis impostas e sua autonomia condicionada.

Fundamentação Teórica

A fundamentação teórica aborda a construção histórica e cultural do gênero, associando a mulher à maternidade e ao lar, o que limita suas escolhas. Discursos pró-natalistas reforçam a maternidade como destino, gerando rótulos negativos para mulheres sem filhos. A literatura classifica a não maternidade em voluntária (childfree, associada à liberdade e autonomia) e involuntária (childless, ligada à frustração). A ausência de filhos pode ser vista como libertação para a carreira.

Metodologia

O estudo adota uma abordagem qualitativa interpretativista. A principal fonte de evidência foi entrevistas em profundidade com 29 mulheres brasileiras sem filhos, de 26 a 71 anos, ativas no mercado de trabalho. As participantes são altamente escolarizadas, com renda acima da média e em cargos de responsabilidade. Os dados foram analisados indutivamente, por codificação aberta, axial e seletiva, resultando em categorias temáticas para discussão.

Análise dos Resultados

A análise revela tensões entre a liberdade percebida e as exigências enfrentadas. A autonomia de mulheres sem filhos é condicionada por expectativas de disponibilidade integral e alta performance. Há expectativas corporativas invisíveis, que as levam a assumir tarefas extras e estender jornadas, resultando em autocobrança para "compensar" a não maternidade. Elas também enfrentam tratamentos profissionais diferenciados, como menor legitimidade em pedidos de flexibilidade ou exclusão de benefícios.

Conclusão

Conclui-se que mulheres sem filhos enfrentam um paradoxo: apesar da aparente liberdade para a carreira, são vistas como mais disponíveis, recebendo demandas adicionais não reconhecidas. Qualificadas e com bons resultados, sofrem estigmas e julgamentos que comprometem sua autonomia. O estudo ressalta a necessidade de revisar culturas organizacionais para valorizar diversos projetos de vida, respeitando limites e escolhas, promovendo equidade e não associando a ausência de filhos à disponibilidade incondicional.

Contribuição / Impacto

A pesquisa é relevante por iluminar a experiência crescente de mulheres sem filhos no mercado de trabalho, revelando desigualdades ocultas e promovendo ambientes profissionais mais justos. Contribui para a literatura sobre gênero e trabalho, ampliando o debate sobre diversidade e equidade no mundo corporativo. O estudo instiga a reflexão crítica sobre políticas organizacionais, defendendo estratégias inclusivas que contemplem diversas trajetórias femininas, além da dicotomia "mães versus não mães".

Referências Bibliográficas

Figueiredo, A. C. S., & Maia, K. S. (2024). Algumas reflexões sobre a emancipação das mulheres brasileiras na perspectiva da interseccionalidade: Psicologia. In Processos psicossociais: Explorando identidade, comunicação, gênero e relações humanas (pp. 47-67). Hirata, H. (2005). Globalização, trabalho e gênero. Revista de Políticas Públicas, 9(1), 111–128. Peterson, H. (2015). Fifty shades of freedom: Voluntary childlessness as women's ultimate liberation. Women's Studies International Forum, 53, 182-191.

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