Anais
Resumo do trabalho
Estudos Organizacionais · Organizações Alternativas
Título
Água Turva: Construção de Sentido e Resistência em Territórios de Conflito
Palavras-chave
Sensemaking
Literatura Brasileira
Conflitos Socioambientais
Autores
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Vitor Carvalho GomesUNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS (UFMG)
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GABRIELE MENEZES DINIZUNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS (UFMG)
Resumo
Introdução
Este ensaio literário explora o romance Água Turva, de Kretzmann (2020), que aborda conflitos sociais e ambientais no Brasil periférico, focando na tentativa de implantação de uma usina hidrelétrica no Parque Estadual do Turvo, Rio Grande do Sul. A obra apresenta múltiplas vozes de resistência e exclusão, desafiando uma narrativa linear ao expor articulações políticas e empresariais. A análise se fundamenta no conceito de sensemaking, especialmente em sua vertente crítica, para compreender como sujeitos constroem significado em contextos de incerteza, dominação e resistência.
Problema de Pesquisa e Objetivo
O problema de pesquisa central é: como indivíduos e coletivos constroem significados em meio à desordem e à dominação, e como, a partir desses significados, agem, resistem ou se silenciam?. O objetivo é explorar como a construção de sentido se manifesta em contextos de ambiguidade e conflito, evidenciando as conexões entre teoria organizacional e literatura. Analisa-se as trajetórias de Olga, Chaya e Preta, destacando como constroem sentido diante de pressões sociais, ambientais e políticas.
Fundamentação Teórica
Adota-se o conceito de sensemaking (Weick, 1995), um processo pelo qual indivíduos interpretam e reconstroem significados em contextos incertos ou caóticos. Utiliza-se também o sensemaking crítico (Helms-Mills, 2003; Mills, 2004; Thurlow, 2009), que questiona o poder de definir significados legítimos, as vozes silenciadas e as identidades marginalizadas. Essa vertente teórica permite expor as estruturas de dominação e as narrativas oficiais, revelando como o poder, a linguagem, a história e as identidades se entrelaçam na produção de sentido.
Discussão
As personagens Olga, Chaya e Preta exemplificam distintas formas de sensemaking em meio ao colapso socioambiental. Olga, em trânsito entre o poder e suas raízes, enfrenta dilemas éticos e o assédio, revelando a complexidade do sensemaking em contextos de vulnerabilidade. Chaya representa um sensemaking radicalmente distinto, enraizado na ancestralidade e na conexão simbiótica com a natureza, em oposição à lógica técnico-econômica do Estado. Preta, por sua vez, manifesta um sensemaking fragmentado pela dor e pela sobrevivência, atuando à margem da legalidade.
Conclusão
A análise de Água Turva demonstra que a construção de sentido em territórios de conflito é um campo de batalhas políticas, culturais e éticas, onde o sentido é produto e instrumento das relações de poder. O romance denuncia a lógica predatória do progresso e o silenciamento de vozes dissidentes. A abordagem pelo critical sensemaking revela que os sentidos legitimados são historicamente construídos por quem detém o poder, e a resistência passa pela recomposição de narrativas alternativas que recuperam afetos e saberes marginalizados.
Contribuição / Impacto
Este ensaio contribui ao deslocar a lente do sensemaking para a literatura, ampliando seu alcance para além de ambientes corporativos. Ele oferece um diagnóstico das contradições da contemporaneidade brasileira e global, onde o progresso mascara interesses econômicos e a exclusão social. O trabalho reforça a literatura como instrumento de crítica, denúncia e esperança para a construção de mundos possíveis, onde justiça e preservação caminham lado a lado, e as vozes de resistência são ouvidas e respeitadas.
Referências Bibliográficas
KRETZMANN, M. Água turva. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2020.\r\nMILLS, A. J.; MILLS, J. C. H. When plausibility fails: Toward a critical sensemaking approach to resistance. In R. Thomas, A. J. Mills and J. Helms Mills [Eds.] Identity Politics at Work: Resisting Gender, Gendering Resistance (pp.139-157). London: Routledge, 2004.\r\nTHURLOW, A.; MILLS, J. H. Change, talk and sensemaking. Journal of Organizational Change Management, v. 22, n. 5, p. 459-479, 2009.\r\nWEICK, K. E. The social psychology of organization. Reading, MA: Addison-Wesley, 1976. \r\n______. Sensemaking in organizations.