Anais
Resumo do trabalho
Estudos Organizacionais · Simbolismos, Culturas e Identidades
Título
PSICOPOLÍTICA EM EDUCAÇÃO DIGITAL: Reflexões sobre gestão emocional e positividade em um curso online
Palavras-chave
Psicopolítica
Psicologização
EdTechs
Autores
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Gabriel Aquino e SarmentoUNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS (UFMG)
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Cristiana Trindade ItuassuUNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS (UFMG)
Resumo
Introdução
O poder psicopolítico, concebido por Stiegler e aprofundado por Han, define-se como forma contemporânea de dominação que opera pela liberdade dos sujeitos. Em substituição ao biopoder, ele investe na psique, moldando subjetividades produtivas e autoexploradas. O discurso organizacional passa a adotar estratégias afetivas e positivas que, sob a aparência de emancipação, reproduzem formas sutis de sujeição, em sintonia com a lógica neoliberal de maximização da performance. A relação constitutiva entre Saberes e Poderes pede por atualização contínua da crítica organizacional.
Problema de Pesquisa e Objetivo
Diante do avanço da psicopolítica como nova racionalidade de dominação e da disseminação de discursos empresariais que mascaram relações de poder sob a linguagem da positividade, questiona-se: como esse fenômeno se manifesta no conteúdo de uma relevante EdTech brasileira? O objetivo é analisar, à luz da crítica psicopolítica, de que modo discursos organizacionais operam em materiais de formação da Visionary (nome fictício), identificando os mecanismos simbólicos que produzem subjetividades voltadas à autogestão e à performance.
Fundamentação Teórica
A revisão teórica se baseia em 14 artigos indexados nas bases Scielo e Web of Science, publicados entre 2014 e 2024, que abordam a psicopolítica a partir de sua formulação por Han. O debate inclui temas como vigilância digital, afetividade algoritmizada, subjetividade neoliberal, discursos excludentes camuflados como progressismo e medicalização da vida. Destacam-se contribuições que articulam psicopolítica com gestão, discurso organizacional, educação digital e biopoder, evidenciando seu caráter transversal e disciplinador.
Metodologia
A pesquisa, qualitativa e exploratória, empreendeu um estudo de caso cujo corpus foram 19 vídeos do curso “Produtividade”, disponível na plataforma Visionary. A edutech foi escolhida pelo alcance: mais de 4 milhões de alunos registrados, e seus clientes corporativos incluem grandes ícones do mundo corporativo. O acesso foi obtido via teste gratuito. A técnica de análise foi a análise de conteúdo (Bardin, 2011), com categorias que emergiram dos dados e permitiram interpretar como o discurso de autogestão atua como vetor da psicopolítica nas práticas educativas analisadas.
Análise dos Resultados
A análise das dezenove aulas do curso “Produtividade” identificou dez categorias temáticas principais, quais sejam: individualização, psicologização, progresso, capitalismo emocional, poder positivo, ubiquidade, sanção positiva, metrificação, imediação/imediatismo, gamificação. Optou-se por contar a presença de cada categoria em cada aula, evitando inflar os dados. Os temas revelam um discurso que foca responsabilidade individual, controle emocional e mensuração constante, refletindo uma lógica neoliberal de autogestão e positivação do sujeito, sem considerar estruturas sociais mais amplas.
Conclusão
O estudo identificou a clara presença das heurísticas da psicopolítica no conteúdo da Edtech analisada, especialmente na apropriação do discurso psi pela administração e na positividade tóxica com fins de manipulação afetiva, produzindo novas formas de existência e sofrimento mental. Embora alguns aspectos não apresentem novidades, traços reiteradamente presentes no discurso analisado, como Poder Positivo, Sanção Positiva e Individualização, destacam reflexões importantes sobre a gestão contemporânea e riscos consideráveis que ela apresenta aos sujeitos.
Contribuição / Impacto
O trabalho contribui ao demonstrar como o discurso psicopolítico se materializa num curso de formação de gestores, evidenciando a penetração da Psicologização e do Capitalismo Emocional no ensino da administração. Ressalta a importância de analisar criticamente o papel da positividade tóxica e das sanções positivas na produção de subjetividades organizacionais. Além disso, aponta a subexplorada instrumentalização dos afetos como campo relevante para a ciência administrativa, indicando lacunas para estudos futuros sobre alternativas políticas, simbólicas e organizacionais na contemporaneidade.
Referências Bibliográficas
HAN, Byung-Chul. Psicopolítica: O neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Belo Horizonte: Editora Âyiné, 2018. 1ª ed.
HAN, Byung-Chul. A Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Editora Vozes, 2015. 1ª ed.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2015. 3ª ed.
FOUCAULT, Michel. Tecnologias de si. Verve: revista semestral autogestionária do Nu-Sol., n. 6, 2004.
WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975. 7ª ed.
CABANAS, Edgar; ILLOUZ, Eva. Happycracia: fabricando cidadãos felizes. São Paulo: Ubu Editora, 2022.
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