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Resumo do trabalho

Marketing · Marketing e Sociedade

Título

Tempo Livre, Corpo Vigiado: Racialização e Bem-Estar Subjetivo de Mulheres Negras

Palavras-chave

Racialização Lazer Bem-estar subjetivo

Autores

  • Jéssica Maria Muniz Côrtes
    UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA (UFPB)
  • Nelsio Rodrigues de Abreu
    UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA (UFPB)

Resumo

Introdução

Este artigo investiga como o consumo de lazer, afetado por processos de racialização, impacta negativamente o bem-estar subjetivo de mulheres negras no Brasil. Mesmo com a ascensão social de parte da população negra, persistem exclusões simbólicas, vigilância constante e práticas discriminatórias em espaços de lazer, que deslegitimam suas presenças e restringem suas experiências de pertencimento. O lazer, concebido como direito constitucional e fator essencial ao bem-estar, transforma-se em espaço de reafirmação de desigualdades.

Problema de Pesquisa e Objetivo

Este artigo tem como problema de pesquisa: Como a racialização do consumo do lazer afeta o bem-estar subjetivo de consumidoras negras?

E o objetivo do artigo é compreender como a racialização do consumo de lazer afeta o bem-estar subjetivo de mulheres negras, a partir das narrativas construídas por meio de histórias de vida.

Fundamentação Teórica

A análise baseia-se nos conceitos de interseccionalidade (Crenshaw, 1989), racialização (Hochman, 2018) e nos estudos críticos do consumo. A teoria da interseccionalidade evidencia como raça, gênero e classe se articulam para produzir formas específicas de opressão, particularmente na experiência de lazer das mulheres negras. A racialização é compreendida como um processo histórico e discursivo que associa marcadores fenotípicos a significados hierárquicos, reproduzindo desigualdades nos espaços sociais e de consumo.

Metodologia

A pesquisa adota uma abordagem qualitativa, com uso de histórias de vida e entrevistas em profundidade com sete mulheres negras cisgênero, com idades entre 18 e 60 anos. A coleta foi realizada de forma remota, via Zoom e WhatsApp, respeitando os protocolos éticos. O método de análise foi a Análise Crítica do Discurso (Fairclough, 2019), buscando interpretar as narrativas como práticas sociais que revelam e contestam relações de poder racializadas e sexistas. O acesso foi do tipo bola de neve e privilegiou diversidade geracional e de trajetórias sociais.

Análise dos Resultados

As narrativas evidenciam que mulheres negras enfrentam microagressões, vigilância excessiva, exclusão simbólica e sentimentos de não pertencimento em espaços de lazer. Mesmo em contextos de ascensão social, a branquitude é mantida como norma nos ambientes de consumo. As entrevistadas relatam estratégias de resistência, como a busca por espaços afrocentrados ou o uso do consumo como afirmação identitária. No entanto, tais estratégias demandam esforço emocional e cognitivo adicional. O lazer, em vez de regenerador, torna-se fonte de desgaste, afetando tanto a dimensão afetiva.

Conclusão

A racialização do consumo de lazer impacta de forma significativa e negativa o bem-estar subjetivo de mulheres negras, independentemente de sua condição socioeconômica. As experiências narradas demonstram que o acesso ao consumo não implica inclusão ou satisfação quando permeado por discriminação. O lazer deixa de ser espaço de descanso para tornar-se campo de tensão, vigilância e reafirmação de desigualdades. Apesar da resiliência e das estratégias de enfrentamento das entrevistadas, a violência estrutural persiste. O estudo reforça a urgência de políticas que assegurem o direito de lazer.

Contribuição / Impacto

A pesquisa amplia os debates sobre consumo, lazer e bem-estar a partir de uma perspectiva crítica, interseccional e situada. Ao centralizar a experiência de mulheres negras, desafia as abordagens hegemônicas que desconsideram raça e gênero no comportamento do consumidor. Oferece subsídios para ações gerenciais inclusivas no setor de lazer, promovendo diversidade e representatividade reais. Em termos sociais, reforça o lazer como direito fundamental ainda negado a muitas.

Referências Bibliográficas

Akotirene, C. (2018). O que é interseccionalidade? Letramento: Justificando.
Boutté, R. L., Johnson, A., Goel, N. J., Simpson, C. C., & Mazzeo, S. (2025). Racialized body dissatisfaction in Black women: Development of the Black feminist model of body image. Journal of Eating Disorders, 13.
Crenshaw, K. (1989). Demarginalizing the Intersection of Race and Sex: A black feminist critique of antidiscrimination doctrine, feminist theory and antiracist politics. University of Chicago Legal Forum, 1.
Diener, E. (1984). Subjective well-being. Psychological bulletin, 95(3), 542.

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