Anais
Resumo do trabalho
Turismo e Hospitalidade · Dimensões e Contextos do Turismo e da Hospitalidade
Título
Acolher o Indizível: Hospitalidade como Travessia no Espectro Existencial de A Paixão Segundo G.H. de Clarice Lispector
Palavras-chave
Hospitalidade
Alteridade
Clarice Lispector
Autores
-
Luana Guimarães MansoUNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI (UAM)
-
Airton José CavenaghiUNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI (UAM)
Resumo
Introdução
O romance A Paixão Segundo G.H. propõe uma experiência estética e filosófica em que a protagonista vivencia o colapso do eu ao acolher uma alteridade inominável. Clarice Lispector constrói uma travessia ontológica em que o encontro com uma barata, figura abjeta e silenciosa, desencadeia uma reconfiguração radical da subjetividade e da linguagem. Essa experiência convoca o leitor a se expor ao estranho, ao desconfortável e ao que está para além do nomeável, instaurando um campo de hospitalidade existencial.
Problema de Pesquisa e Objetivo
O presente estudo investiga de que modo a noção de hospitalidade radical pode ser mobilizada como chave de leitura para a obra A Paixão Segundo G.H.. Busca-se compreender como Clarice Lispector, por meio da experiência da protagonista diante do indizível, tensiona os limites entre sujeito e alteridade, linguagem e silêncio, ética e abjeção. O objetivo principal é analisar como o gesto de acolhimento daquilo que desestabiliza o eu funda uma nova forma de ser e de narrar no interior da literatura clariciana.
Fundamentação Teórica
A análise dialoga com autores que pensam a hospitalidade como abertura incondicional ao outro, especialmente Jacques Derrida e Emmanuel Lévinas. A categoria de abjeção, proposta por Julia Kristeva, é mobilizada para interpretar o encontro com o indizível. A crise da linguagem é abordada a partir de Benedito Nunes, Hélène Cixous e Roland Barthes, em articulação com o conceito de écriture féminine. Também são considerados aspectos biográficos de Clarice Lispector, conforme leitura crítica de Gotlib e Moser.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, hermenêutica e de base interdisciplinar, com enfoque na análise literária. Utiliza-se o método da close reading, conforme proposto por Eagleton e Nunes, atentando-se à tessitura da linguagem e suas rupturas. A obra A Paixão Segundo G.H. é lida como campo simbólico e existencial que expressa a desconstrução do eu e a irrupção do indizível. O estudo articula o texto ficcional a categorias conceituais da filosofia, antropologia e psicanálise, respeitando a alteridade do texto.
Análise dos Resultados
A análise evidencia que G.H., ao acolher a alteridade extrema representada pela barata, vivencia uma dissolução ontológica que desestrutura sua identidade e linguagem. O quarto de empregada é interpretado como um não-lugar, espaço de travessia simbólica onde se dá a suspensão das categorias do lar, do sujeito e do humano. A hospitalidade se realiza como abertura não ao semelhante, mas ao absolutamente outro, sem rosto e sem nome. O gesto de engolir o indizível sinaliza uma entrega existencial sem retorno.
Conclusão
Conclui-se que A Paixão Segundo G.H. realiza uma escrita da hospitalidade radical, que não se limita à tolerância ao outro, mas exige a renúncia da centralidade do eu. O acolhimento do indizível não leva a uma superação reconfortante, mas a um esvaziamento fértil que permite habitar a existência de forma mais aberta, ética e impessoal. A travessia da protagonista, marcada por abjeção e silêncio, revela que apenas ao acolher o que era excluído é possível romper com as falsas garantias da identidade moderna.
Contribuição / Impacto
A pesquisa propõe uma leitura inovadora do romance clariciano à luz das teorias da hospitalidade, contribuindo para o aprofundamento dos estudos sobre alteridade, ética e linguagem. Ao articular literatura, filosofia e teoria crítica, oferece subsídios para pensar os limites do humano, da representação e do sujeito. O trabalho também ilumina debates atuais sobre hospitalidade em contextos sociais marcados pela intolerância e pelo exílio, sugerindo o potencial transformador da literatura como espaço de escuta e abertura.
Referências Bibliográficas
Cixous (1979); Derrida (2003); Eagleton (1996); Gadamer (1999); Gotlib (2009); Kristeva (1982); Lévinas (2000); Lispector (1964, 1973); Mauss (2018); Moser (2009); Nunes (1989); Poli (2009).